MEMÓRIAS DO RURAL: ESTRATÉGIA DE RESGATE DA HISTÓRIA AMBIENTAL E DE ENRAIZAMENTO DE COMUNIDADES NA REGIÃO SISALEIRA DA BAHIA


ALESSANDRA ALEXANDRE FREIXO
ANA MARIA FREITAS TEIXEIRA
DENISE HELENA PEREIRA LARANJEIRA
DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO / NETTE



Resumo

Este projeto tem como um de seus objetivos centrais a construção da memória coletiva das comunidades rurais da região sisaleira da Bahia, enquanto elemento fundamental ao processo de enraizamento dos sujeitos em sua região. Esse processo, aqui denominado de enraizamento, que pode ser traduzido como o grau de pertencimento dos sujeitos à sua comunidade local/regional, apresenta-se como um dos elementos centrais à dinâmica de constituição, solidificação e difusão do capital social em suas dimensões econômicas, políticas e culturais. Seguindo nessa direção, consideramos que a construção da memória do rural na região sisaleira é um importante elemento na análise das estratégias adotadas por essa comunidade na definição e implementação de políticas públicas de desenvolvimento local e regional, que envolvem, inclusive, os aspectos sócio-ambientais. É tomando como referência esse conjunto de questões que nos parece fundamental analisar a experiência desenvolvida no município de Valente onde se observa o desenvolvimento de políticas de desenvolvimento local focadas na ampliação das redes associativas horizontais e verticais em que a articulação entre os diversos segmentos do tecido social, a dimensão cultural, ambiental, educacional, político, econômico, emerge como fundamental. Aqui a Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB) e a Escola Família Agrícola (EFA) parecem ter um papel relevante a exigir uma análise mais cuidadosa.




1. INTRODUÇÃO
O rural brasileiro, e principalmente nordestino, tem sido foco de muitas pesquisas, especialmente no que tange a seu potencial transformador e promotor de desenvolvimento social. Muitos autores, como Wanderley (2001), consideram que a sociedade atual redescobriu o rural, ressignificando-o. O que anteriormente era visto como sinônimo de atraso, gerador de problemas sociais de toda ordem que, em última instância, afetava a dinâmica do meio urbano, atualmente é visto como um meio gerador de soluções aos problemas sociais rurais e urbanos. Conforme Wanderley,
A sociedade brasileira parece ter hoje um olhar novo sobre o meio rural. Visto sempre como a fonte de problemas – desenraizamento, miséria, isolamento, currais eleitorais etc– surgem, aqui e ali, indícios de que o meio rural é percebido igualmente como portador de “soluções”. Esta percepção positiva crescente, real ou imaginária, encontra no meio rural alternativas para o problema do emprego (reivindicação pela terra, inclusive dos que dela haviam sido expulsos), para a melhoria da qualidade de vida, através de contatos mais diretos e intensos com a natureza, de forma intermitente (turismo rural) ou permanente (residência rural) e através do aprofundamento de relações sociais mais pessoais, tidas como predominantes entre os habitantes do campo. (2001, p. 31)
Desta forma, a própria dicotomia rural-urbano, a partir desse “novo olhar” sobre o rural, é relativizada, à medida que, o rural e o urbano se aproximam, no imaginário da sociedade globalizada, formando um continuum (SIQUEIRA e OSÓRIO, 2001). Ainda, os problemas sociais, antes vistos como advindos do meio rural – que em geral, foram atribuídos à freqüente migração rural-urbano nas décadas de 60 e 70 –, atingem dimensões supra-territoriais, de modo que a simples distinção urbano-rural se torna insuficiente para se compreender a complexidade da crise atual em que vivem os meios rurais e urbanos no Brasil.
Neste contexto de crise, de que estratégias se vale a sociedade, para promover o desenvolvimento social? Muitas experiências têm sido realizadas para alcançar tal objetivo, tanto locais ou regionais, que vem contribuindo para a elaboração de políticas públicas de desenvolvimento regional. Tais experiências partem de um princípio comum: o desenvolvimento humano/social se faz pela formação de cidadãos.
No contexto rural atual, podemos citar as experiências educacionais dos movimentos sociais que lutam pela posse de terra, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), como uma experiência largamente sistematizada (CALDART, 2001), bem como experiências educacionais formais, como as Escolas Família Agrícola (EFA), com seu amplo projeto de Pedagogia da Alternância (QUEIROZ, 2001), e experiências regionais, como os projetos SERTA e CAT (BAPTISTA, 2003), exemplares na educação do semi-árido.
Dentre as experiências educacionais voltadas para o desenvolvimento social e regional no semi-árido, destaca-se o trabalho realizado pela Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB), que vem desenvolvendo estratégias de convivência no semi-árido e promovendo um grande ganho social na região sisaleira da Bahia (APAEB, 2004).
A experiência APAEB integra processos formais e não-formais de educação, nos quais os pequenos produtores e seus familiares são formados para transformarem-se em sujeitos de seu lugar e promotores do desenvolvimento regional sustentável. E a interação destes processos formais, realizados na Escola Família Agrícola, e não-formais, principalmente os que se dão no interior das comunidades integradas à Associação, que é o foco de nosso projeto.
A partir da leitura das experiências desenvolvidas pela APAEB, acreditamos ser possível e necessário um maior enraizamento dos sujeitos em sua região. Tomamos como de partida para tal enraizamento a compreensão, pela comunidade, dos processos sócio-ambientais que se dão na região sisaleira; compreensão esta que percebemos ser possível através de uma construção da memória do rural. O processo aqui denominado de enraizamento pode ser traduzido como o grau de pertencimento dos sujeitos à sua comunidade local/regional, apresentando-se como um dos elementos centrais à dinâmica de constituição, solidificação e difusão do capital social (ABRAMOVAY, 2000; SABOURIN e TEIXEIRA, 2000; MILANI, 2003) em suas dimensões econômicas, políticas e culturais.
Assim, trazemos como elemento norteador o seguinte questionamento: é possível que a reconstrução da memória coletiva das comunidades rurais da região sisaleira atue como um processo de resgate da história ambiental do lugar e ressignificação de suas percepções de rural, natureza e meio ambiente, de modo a subsidiar políticas de enraizamento e desenvolvimento sustentável para a região?
É tomando como referência esse conjunto de questões que nos parece fundamental analisar a experiência desenvolvida no município de Valente onde se observa o desenvolvimento de políticas de desenvolvimento local focadas na ampliação das redes associativas horizontais e verticais em que a articulação entre os diversos segmentos do tecido social, a dimensão cultural, ambiental, educacional, político, econômico, emerge como fundamental. Aqui a Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB) e a Escola Família Agrícola (EFA) parecem ter um papel relevante a exigir uma análise mais cuidadosa.

2. OBJETIVOS

GERAL
Incorporar a memória coletiva das comunidades rurais da região sisaleira, em sua dimensão sócio-ambiental, às políticas de desenvolvimento local, na perspectiva de aprofundar o enraizamento/pertencimento destas comunidades como elemento constitutivo de um capital social potencializador das cadeias de reciprocidade, confiança, normas e sistemas de participação.

ESPECÍFICOS
- Reconstruir a história ambiental da região sisaleira, tendo como ponto de partida as memórias do rural;
- Investigar as representações de rural/ruralidade, natureza e meio ambiente presentes nos discursos dos sujeitos de estudo, principalmente velhos;
- Estreitar as relações EFA-Comunidade, através de propostas pedagógicas que estimulem a pesquisa da memória local pelos estudantes, professores e toda a comunidade escolar;
- Identificar e analisar o capital social constitutivo da região em questão;
- Identificar e analisar as redes de cooperação entre os diferentes sujeitos do desenvolvimento local.

3. METODOLOGIA

Este trabalho será desenvolvido a partir de um viés essencialmente qualitativo, no qual faremos uso, principalmente, dos fundamentos téorico-metodológicos da pesquisa em memória social, de acordo com o proposto por Bosi (2003). Para tanto, utilizaremos a história oral como elemento fundamental da pesquisa, seguindo a proposta metodológica sugerida por Thompson (2002).
Esta pesquisa será desenvolvida em parceria com a Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB), a Escola Família Agrícola (EFA) e algumas comunidades da região sisaleira. A escolha de tais campos de estudo se deu devido à influência que a APAEB exerce na região e por percebermos que os objetivos desta associação estão em consonância com aqueles propostos por esta pesquisa.
Iniciaremos nosso trabalho com uma pesquisa exploratória, na qual investigaremos a estrutura organizacional da APAEB, seus associados, sua história, a organização da EFA, etc., a partir de levantamento bibliográfico e entrevistas exploratórias com membros da diretoria da associação. Tal etapa de pesquisa tem como finalidade mapear possíveis campos de pesquisa e identificar os sujeitos da pesquisa.
Após a etapa exploratória, centraremos nosso trabalho na investigação dos processos de reconstrução da memória coletiva das comunidades sisaleiras, tomando como ponto de partida a comunidade escolar da EFA, em especial docentes e alunos, de modo a desenvolver uma proposta pedagógica coletiva, em que se criem espaços/tempos de debate e construção da história das comunidades e municípios da região do sisal. Para tanto, nos apropriaremos da metodologia proposta por Park (2002), na qual os estudantes serão estimulados a participar da coleta de diversas fontes de memória, tais como: fotos, documentos, objetos e, principalmente, entrevistas com vizinhos e/ou familiares mais velhos. Todos estes dados/materiais serão catalogados e servirão de base para o acervo de exposições à comunidade em geral, organizadas pela comunidade escolar e com o apoio da APAEB, através de seu Museu do Sisal.
O trabalho realizado na escola, além de promover um maior estreitamento das relações comunidade-escola, possibilitará uma compreensão das representações de rural presentes entre estudantes e professores da EFA, bem como constituir-se-á num subsídio para o estudo da memória dos velhos da região sisaleira, nosso principal objeto de estudo. Tal estudo será desenvolvido a partir dos dados coletados pelos estudantes da EFA, os quais também contribuirão para a seleção dos sujeitos de pesquisa.
Na etapa seguinte da pesquisa, que tem como objetivo a reconstituição da história ambiental das comunidades, investigaremos o sentido dado pelos mais velhos às mudanças ambientais da região e suas representações de rural, natureza e ambiente. Os recursos metodológicos utilizados nesta fase da pesquisa serão a observação e registro de dados em caderno de campo, bem como a entrevista, de acordo com o proposto por Thompson (2002). Os critérios de escolha dos sujeitos desta pesquisa serão: pequenos agricultores, homens e mulheres, que tenham idade superior a 70 anos e que tenham participado do trabalho desenvolvido na Escola Família Agrícola, a cada ano letivo.
Associando às falas dos velhos, utilizaremos ainda a imagem fotográfica (caso seja permitido pelos sujeitos da pesquisa) como forma de registro de dados.
A análise dos dados coletados a partir das entrevistas com os professores e os velhos da comunidade será realizada com base na Teoria das Representações Sociais, proposta por Moscovici apud Jovchelovitch (1999). Tal abordagem de análise se justifica, em nossa pesquisa, pelo fato de considerar as representações como construções coletivas, rompendo com uma perspectiva individualizante de leitura de mundo.
Para compreensão das representações de rural, natureza e meio ambiente, lançaremos mão, ainda, das contribuições de Froehlich (2002), Medeiros (2002) e Sauvé (1997), respectivamente.
Buscaremos ainda, com base nos discursos dos velhos, identificar e analisar o capital social constitutivo da região, bem como seu papel no fortalecimento de redes de cooperação entre os diferentes sujeitos do desenvolvimento local. Para tanto, lançaremos mão dos referenciais propostos por Milani (2003) e Abramovay (2000).
Como caminho para o enraizamento das comunidades e fortalecimento de laços entre escola-comunidade, ao fim da pesquisa, promoveremos, além das exposições permanentes já citadas acima, momentos que chamaremos de “contação de casos”, no qual os velhos serão convidados a dialogar diretamente com as crianças e os sujeitos mais jovens e contar suas histórias em sua comunidade, cumprindo assim seu papel social de reconstrutores da história, conforme nos sugere Bosi (1983). Tais momentos de socialização de saberes poderão ser realizados na escola e/ou no Museu do Sisal (constituindo neste local o chamado Museu Vivo, no qual os velhos contribuirão ativa e continuamente para o acervo do Museu, de acordo com a metodologia proposta por Thompson, 2002).
Está prevista ainda a realização de oficinas de construção de memórias, através das quais pretende-se socializar as experiências vivenciadas na EFA a outras escolas de educação básica do Município de Valente, com a contribuição dos estudantes e professores que se envolveram neste projeto.


4. RESULTADOS ESPERADOS

Esperamos com este projeto desenvolver uma documentação da história rural e ambiental dos municípios associados à APAEB e contribuir para uma (re)construção do papel social dos velhos da região, bem como para a promoção de políticas de enraizamento de comunidades da região sisaleira.


5. BENEFICIÁRIOS E BENEFÍCIOS SOCIAIS PREVISTOS

Beneficiários Diretos:
1) Associados da APAEB, professores e estudantes da Escola Família Agrícola e comunidades dos municípios atendidos pela EFA
2) Departamento de Educação da UEFS, pelo fortalecimento de linha de pesquisa em Educação e Trabalho no Campo.

Beneficiários Indiretos:
Comunidades rurais do semi-árido como um todo

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMOVAY, R. O capital social dos territórios: repensando o desenvolvimento rural. Economia Aplicada, v. 4, n. 2, 2000.
APAEB. Relatório anual de atividades: 2003. Valente: Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente, 2004. 74p.
BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1983. 402 p. (Série Estudos Brasileiros, 1)
BOSI, E. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
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CALDART, R. S. O MST e a formação dos Sem-Terra: o movimento social como princípio educativo. In: GENTILI, P., FRIGOTTO, G. (Orgs.) A cidadania negada: políticas de exclusão na educação e no trabalho. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001. p.125-145.
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